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2011-04-01 - Jornal da Capital
Peças raras


Colecionar é um dos hábitos mais curiosos do homem. De tampinhas a carros, qualquer objeto pode ter valor sentimental para alguém. Inspirado nisto, o Jornal da Capital vai investigar o universo das coleções e as pessoas que dele fazem parte.

 

Em pesquisa pela internet, quando se coloca os termos “colecionador Porto Alegre”, um dos primeiros a surgir é um local chamado Loja do Colecionador. As informações não são muitas, não há um site nem indicações além do endereço (bem no centro da cidade). Pois bem, fui conhecer o lugar imaginando ser uma loja recheada de artigos colecionáveis, uma verdadeira miscelânea de objetos, todos com potencial para despertar a vontade de comprar. Para minha surpresa, a Loja do Colecionador de Porto Alegre não é mais do que um escritório. Não há prateleiras lotadas com objetos para comprar, apenas moedas de prata e gibis antigos, entre outras coisas fora da minha vista. E a resposta para isto seria muito simples.
João Moacir Lima tem 60 anos e há pelo menos 25 trabalha todos os domingos no Brique da Redenção, vendendo moedas, cédulas, postais, gibis, medalhas, selos e álbum de figurinhas. E é muito importante esclarecer: “Não sou colecionador, sou comerciante, eu compro e vendo. Colecionadores são os meus clientes”. Ele ainda é leiloeiro oficial da Sociedade Gaúcha de Numismática e Coordenador da Feira de Gibis de Porto Alegre, que acontece no primeiro domingo de cada mês no Mercado Público. Em seu cartão de apresentação está escrito Perito Avaliador. Em termos simples é isto que acontece: suponhamos que uma pessoa tem uma moeda antiga em casa e não vê muita utilidade para ela. Seu João a classifica (de acordo com catálogos sobre o assunto) e aplica um valor X. Mais tarde, ele a vende para um colecionador por um valor Y e tem um lucro considerável. 
 
A moedinha de US$ 8 milhões
As moedas chamam sua atenção desde criança. Segundo ele, aos 10 anos ganhou de um amigo uma no valor de 2,5 centavos de 1909 da Holanda. Aos 20 entrou na Brigada Militar e serviu por 16 anos. Ao ir para a reserva, foi trabalhar em um hotel bastante freqüentado por estrangeiros e começou a fazer câmbio com eles. Depois, começou a comprar moedas de prata e revendia aos turistas que as levavam de lembrança. E a partir de 85, ao entrar no Brique, nunca mais trabalhou com outra coisa. É leilão no sábado, Feira de Gibi e o Brique no domingo e o escritório de segunda a sexta.
O mercado de moedas é bastante amplo, mas também tem espaço para raridades. Chega a ser contraditório pensar que a moeda mais rara do mundo é de apenas um dólar americano, do ano de 1804, que foi avaliada em oito milhões de vezes mais que o valor original. Seu João nunca pegou nada deste porte, mas já aconteceu de caírem em sua mão artigos que valessem até R$ 15 mil. O mais raro que já conseguiu foi uma cédula portuguesa da década de 20, que conseguiu meio por acaso. “Queriam fazer câmbio com o dinheiro, mas avisaram o sujeito que a cédula não valia mais há muito tempo, então deram para ele o meu cartão. Na época, eu comprei no escuro por R$ 20,00, embora soubesse que pelo ano e estado de conservação ela valesse mais.” Ele só não imaginava que ela valesse muito mais. “Eu vendi ela por U$1.000 para depois descobrir que ela vale atualmente 10 mil euros”. A questão dos objetos raros é que muitos já se encontram em coleções e não vão ser vistos circulando com leigos com tanta facilidade. O numismata compara esta possibilidade a ganhar na Mega Sena.
 
Razões para colecionar
Agora a grande pergunta: Por que colecionar? Qual a razão de se investir dinheiro em algo cujo retorno não se pode exatamente mensurar? Nada como a experiência de alguém que por anos conviveu com colecionadores para responder. “É um certo saudosismo, principalmente por parte dos homens. Do tipo, o cara ganhou uma moeda do avô quando era criança, ou coleciona os mesmos gibis que lia na infância, é uma forma de recuperar este tempo. E depois que a coleção se torna grande, há o desejo e a satisfação de ostentá-la. Bom, este é um ponto. Outro aspecto é um pouco mais complicado pois exige algo que nem todos tem para esbanjar em objetos que não necessariamente precisam: dinheiro. “Eu tenho um cliente que compra várias moedas de prata daquelas grandonas há pelo menos oito anos. Deve ter umas 1500. São 80, 100 kg só de prata, o que a grosso modo dá cerca de R$ 120 mil. Imagina quanto dinheiro esse homem não tem?”. É um investimento, sim, para os que têm a guaica cheia de peles.
De acordo o experiente comerciante, o colecionador (daqueles levados bem a sério) deve ter três características fundamentais: Em primeiro lugar, gostar do objeto, segundo, conhecê-lo com certa profundidade e terceiro, poder bancar uma possível coleção. “Pobre não coleciona – e não tenho nada contra quem é pobre – simplesmente por não ter verba para poder bancar. Normalmente quando recebem uma coleção de herança de algum parente logo se desfazem.” Seu João também alerta para outro detalhe importante. Dificilmente em minha busca pelos colecionadores portoalegrenses eu acharia alguma mulher com coleções grandiosas, porque o sexo feminino é mais prático com a questão do dinheiro e menos saudosista. “Boa parte das pessoas que vêm me procurar são viúvas que querem vender as coleções dos maridos quando estes morrem.”, revela. “O ‘monte de porcaria’ que elas trazem, às vezes tem artigos muito bons que eu coloco no mercado de novo. Por isso, quando morre um colecionador é uma festa (risos)”. É, o mundo das coleções também tem espaço para um pouco de diversão.