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2011-04-20 - Paulo Lontra
Lembranças das festas populares que não voltam mais

Enquanto escrevia meu comentário sobre as festas do fim de ano, publicado no número anterior do “Jornal da Capital”, lembrei-me que a Porto Alegre dos anos 50, por aí, tinha uma série de eventos que faziam a alegria dos portoalegrenses, especialmente dos jovens. Alguns deles a modernidade liquidou; outros, o politicamente correto encarregou-se de acabar. O tradicional “Carnaval da Santana” é um exemplo típico das boas coisas que sumiram do nosso cenário. Era organizado pela dona Maria Bravo, se bem me lembro, moradora da Rua Olavo Bilac. Blocos e foliões vinham de todos os pontos da cidade. A maioria vinha de bonde e a festa embalava por todos os dias de carnaval.

Havia concurso de fantasias e de blocos e os jornais se encarregavam de divulgar a festa. A partir de um determinado ano, sei lá qual, o “Carnaval da Santana” terminou. Creio que a organização do nosso carnaval, promovida pelas autoridades, conseguiu acabar com o da Santana. Mais uma tradição que terminou.

A cada Sexta-Feira Santa, acontecia a “Malhação de Judas”. Confeccionado com palha e sacos, o “Judas” recebia roupa, meia e até chapéu. Ficava um negócio meio desengonçado, mas que servia para o propósito final : Receber uma surra de pauladas, socos e chutes. Depois de bastante estraçalhado, o pobre era pendurado num poste ou árvore e devidamente incendiado, para a alegria dos espectadores. E isto tudo em plena Rua da Praia! A nossa inocência ainda não havia recebido a carga de preconceito e o anti-semitismo era coisa que só acontecia em outros países. Sei lá, o “Judas” era malhado porque era um divertimento para a juventude, apenas isto. A brincadeira acabou com a chegada do politicamente correto e pela condenação explicita dos meios de comunicação. Em outras cidades do País a “Malhação” ainda subsiste, apesar dos protestos.

A cada mês, acontecia uma quermesse. Por definição, uma quermesse destinava-se a angariar dinheiro. Colégios públicos e particulares eram os maiores realizadores, juntamente com as igrejas. Lembro as quermesses do Colégio das Dores, do Colégio Rosário, Sevignè, Bom Conselho, Igreja do Santo Antonio. Invariavelmente elas contavam com pequenas bancas com jogos de argolas, porquinho da índia, “prisão”, “telegramas” e uma área de lanches. Havia também uma roleta que permitia apostas; coisa que causaria “enérgica providência” por parte das nossas vigilantes autoridades, hoje em dia, mas que, naquela Porto Alegre dos anos 50, era algo perfeitamente normal. Nas quermesses, ocorriam namoros aos montes e muito casamento começou ali.

E os diversos colégios esforçavam-se para apresentar a quermesse mais bem organizada, com o maior número de atrações. Acho que hoje elas ainda existem, mas não mais naquela quantidade e nem com a afluência de épocas passadas. Perdeu o encanto e a inocência, como tudo o mais com a chegada do progresso.

A Festa dos Navegantes era e é uma atração da vida porto-alegrense. Originada na colonização portuguesa, nos primeiros anos da nossa Capital, ela tinha um trajeto bastante simples: Saída da Igreja do Rosário - Rua Vigário José Inácio, a procissão seguia pela Otávio Rocha, em direção ao portão central do Porto, onde um barco oficial recebia a estátua de Nossa Senhora. Se não estou enganado, o barco chamava-se “Porto Alegre” e era movido por rodas externas. Ele estava cercado por um número bastante grande de barcos de todos os tamanhos e formas, pertencentes a órgãos públicos e a particulares, que recebiam os participantes da procissão. Daí até o cais dos Navegantes em direção da Igreja de mesmo nome. O barco principal era acompanhado por aquela flotilha festiva, com muita reza e muitos cânticos. Barcos dos bombeiros lançavam jatos de água para o ar, enquanto que os outros apitavam pra valer.

Guarnições dos principais clubes náuticos da Capital acompanhavam a procissão pelo rio, com seus barcos mais elegantes e famosos, tipo "oito com patrão", e os remadores devidamente uniformizados.

Uma grande festa. E não era apenas uma festa religiosa, mas um evento social e político, porque as figuras mais representativas da cidade e do Estado estavam presentes. Compareciam o Prefeito Municipal, seus secretários, os vereadores. Eu me recordo que o Governador Ildo Meneghetti era um freqüentador da procissão. Era um ponto de destaque no calendário social e religioso da nossa Capital. Hoje a Procissão dos Navegantes perdeu a sua atração e deixou de ser um elemento de convergência da sociedade porto-alegrense, sabe-se lá por que.

Uma das atrações da sociedade porto-alegrense, durante muito tempo, foi o chamado “chá de cruzada”, patrocinado pelas pessoas com representatividade e nome. Senhoras da sociedade local conseguiam um salão ou uma casa, em alguma rua do centro e ali faziam um sarau para as melhores e mais abonadas figuras da Capital, tudo regado a chá, doces e bolachinhas. Os ingressos para o chá eram vendidos por um preço levemente salgado. A receita final era sempre destinada â uma obra beneficente ou à criação de alguma instituição de caridade, Lembro de um Chá realizado com toda a pompa e com a presença da fina flor da sociedade daqui, e que teve como local um prédio que até então servira como sede de uma famosa casa de leilão, a Batista Pereira. Ficava na Rua da Praia e, temos depois foi demolida e em seu lugar surgiu o Edifício Cacique, que está lá até hoje. Neste Chá badaladíssimo, a hora artística teve como presença de destaque, a Hebe Camargo. O evento serviu, se bem me lembro, para angariar recursos para a construção do Hospital Banco de Olhos, instituição médica de enorme importância para a Capital.


Numa próxima edição, falarei sobre outros acontecimentos que faziam a crônica da nossa Capital.